O Arrependimento de Deus


Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração.  (Gênesis, 6: 6)
Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra; jamais este versículo pode ser interpretado literalmente. É a própria literatura judaica que comenta:
E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa.[1]
O arrependimento é um sentimento humano, e o Deus transcendente não é humano e nem tem este tipo de sentimento.
Só tem o poder de arrepender quem pode errar, e para Deus o erro é impossível, Deus é a Perfeição Absoluta. Deste modo, não é isso que o autor sagrado quer dizer.
Algumas versões usam o verbo "lamentar" tentando minimizar o problema da dificuldade de se entender o tema, não estão em erro já que a palavra hebraica nacham tem também este significado. Entre outros sentidos deste vocábulo, está "ter compaixão" o que poderíamos dizer estar mais condizente com Deus a respeito dos erros do homem, todavia não podemos dizer ser este também o sentido.
Ao que nos parece, o melhor entendimento para este versículo, é compreender que se trata da ação da Lei retornando ao homem o que lhe é merecido.
Deus é Misericórdia, entretanto, a Lei é Justiça, e como o humano optou por um caminho que não era para ele o mais seguro e confortável, recebeu do Deus-Lei o que era cabível naquele momento. Ou seja, podemos fazer uma analogia entre este "arrependimento de Deus" e a "ira divina" expressão esta muitas vezes usada pelo apóstolo Paulo em se referindo à reação da Lei às negatividades humanas.
Ademais, o versículo diz de Deus ter feito o homem sobre a terra, o verbo é fazer - em hebraico asah - , o que não é atributo de Deus, mas dos Espíritos, ao contrário do verbo "criar" - hebraico bara - o que verdadeiramente pode ser atribuído ao Pai Criador.
Deus não fez homens, e sim criou Espíritos, e não fez sobre a terra, mas no Universo Espiritual, onde matéria inexiste. A condição humana só foi necessária ao Espírito devido ao afastamento deste de Deus o que a literatura bíblica simbolizou com a queda do Espírito. Afastamento este que depreendemos desnecessário conforme a orientação dos Espíritos a Kardec quando afirmam que o Espírito não precisava passar pela fieira do mal[2], e que o mundo corpóreo não precisaria ter existido jamais[3].
…e pesou-lhe em seu coração.  Mais uma vez uma emoção humana tentando expressar um sentimento divino o que não é cabível. É como se Deus pudesse se afligir.
Não podemos esquecer que estes versículos são uma introdução para a narrativa do dilúvio que representa o encerrar de um ciclo de negatividades, o que pode parecer uma "punição" de Deus. Não é que Deus tenha tido estes sentimentos, o narrador bíblico é que expressa o seu sentimento particular como se fosse o do Criador. Esta é visão do autor do texto, o entendimento que ele deu ao evento.
A Bíblia é um livro inspirado, disso não temos dúvidas. Com o conhecimento espírita aprendemos tratar-se de uma obra mediúnica, onde cada autor teve maior ou menor influência do mundo espiritual de acordo com a sua possibilidade. Podemos sem medo de errar, dizer que o próprio Espírito de Verdade orientou a sua redação em todos os momentos possíveis. Entretanto, aprendemos também com a Codificação Espírita que toda comunicação mediúnica tem, em maior ou menor grau, influência do médium que a recebeu. Sendo assim, o texto bíblico não está em erro, conforme disse-nos o próprio Kardec, o que precisa, é que ele seja melhor interpretado à luz da Revelação Espírita. Seus ensinos não são para serem apreendidos com os instrumentos físicos, mas com todos os recursos da alma, é em espírito que devem ser entendidos.
E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito. (Gênesis, 6: 7)
E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra; lembramos mais uma vez que o dizer do Senhor é a Lei de Deus.
Sobre o "destruir", os Espíritos nos alertam com muita clareza em O Livro dos Espíritos, no capítulo sobre a Lei de Destruição, que ela é necessária no estágio evolucional em que estamos, o Universo material é todo envolvido por esta Lei. Se há a Lei de Conservação, há também a de Destruição, porém destruição não significa eliminação, mas transformação, recomposição.
Podemos dizer que este destruir significa arrependimento, não de Deus, mas como uma necessidade daquele que errando deve buscar crescer pela transformação do erro em acerto.
A destruição do homem significa o desaparecimento de seus sentimentos puramente humanos, será a transformação da carne em espírito, o que se dará pela evolução, pelo aperfeiçoamento moral; é quando surge a Nova Criatura. A tendência é que o homem seja mesmo extinto da Terra, que no futuro, quando nosso orbe for um mundo superior, será habitada por anjos, por Espíritos purificados.
Nos comentários do versículo anterior dissemos que Deus cria Espíritos, e não homens, e que não os cria na terra [mundo físico], mas no Universo Espiritual. Aqui, parece que este verso que ora analisamos contradiz o que dissemos anteriormente, pois o texto diz: …homem que criei de sobre a face da terra.
Sem querer forçar a interpretação depreendemos que o Senhor aqui, ou seja, Deus, é a representação de Sua Lei. Nós não podemos compreender a essência de Deus, assim temos de tentar entendê-Lo em seus aspectos. Desta forma, apesar Dele ser o Criador da Lei, de transcendê-la, podemos dizer que a Lei é um dos aspectos do Criador, e neste ponto o homem foi formado pela Lei que leva o Ser criado da matéria ao Espírito, mas como o Espírito não é o homem, este terá de ser destruído [de sobre a face da terra, significando sua natureza material] pela própria Lei que fará com que o Espírito, verdadeira criação de Deus, a Ele retorne em perfeição.
…desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; esta "destruição" terá de ser total, não poderá ficar nenhum sentimento que for da condição humana; em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil[4].
Do homem ao animal dá-nos a entender uma linha involutiva, ou seja, um processo contrário à Lei. Tudo que se opor à Ordem de Deus será extinto, toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada[5].
Mais uma vez temos animal, réptil, aves do céu, significando todos os nossos estágios anteriores nos reinos inferiores da criação, a nossa tendência ainda a vários tipos de animalidade
É a psicologia do bruto que tem de ser destruída, aniquilada de nossa intimidade. Porém, não é a luta para extingui-la do outro, mas de nós mesmos. É preciso compreendermos que todo este processo de evolução que acompanhamos nos textos bíblicos deve ser analisado como sendo a proposta da Vida para nossa reeducação, nosso aperfeiçoamento espiritual, que significa o fim da animalidade em favor da conquista de maior espiritualidade.
Novamente no final do versículo é falado em arrependimento de haver feito o homem, o que já foi por nós comentado.
 Extraído do Livro Haja Luz (a publicar)


[1] 1 Samuel, 15: 29
[2] Cf. (KARDEC, O Livro dos Espíritos. 50ª ed. 1980), Q 120
[3]Idem, ibidem, Q. 86
[4] Mateus, 5: 26
[5] Mateus, 15: 13

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