#Reencarnação na #Bíblia - Caim e Abel





E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque. (Gênesis, 4: 17)
Através deste versículo vemos Caim projetado numa nova fase de sua vida imortal. É um novo momento que se inicia para ele sequenciando suas experiências anteriores.
Há a necessidade de recomeçar, Caim deixa seu pai e sua mãe, conhece sua mulher e continua assim sua caminhada evolutiva.
Reciclando rapidamente para que não fiquem dúvidas quanto à nossa proposta interpretativa, tivemos anteriormente Adão e Eva sugerindo-nos lances de nossa própria personalidade no que diz respeito a conquistas na área da razão e do sentimento, e em Caim e Abel a representação de nossas viciações e virtudes, ou ainda, a ética e o rompimento com esta.
E conheceu Caim a sua mulher; vemos aqui claramente a proposta de vinculação e desvinculação. Caim sai de sua tribo, de sua família; desvinculação, e une-se à sua mulher criando novos laços; isto é, vincula-se novamente, em outra dimensão, com uma proposta regenerativa.
A vida é sempre assim, evoluímos vinculando e desvinculando, atando e desatando laços. Assim construímos nossa história, aperfeiçoamo-nos para Deus.
Esta nova vida de nosso personagem, representação de um novo momento, pode significar também uma nova experiência encarnatória como já trabalhamos anteriormente.
Caim conhece sua mulher e cria uma nova família e nela recebe como filhos elementos de seu passado que o auxiliarão em seu processo de reajuste.
…e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; nós temos a partir deste verso até o fim deste capítulo uma genealogia que expressa a descendência de Caim. No capítulo posterior, o de número cinco, nós vamos ter outra genealogia que vai de Adão a Noé, a partir de Set.
A primeira foi atribuída à tradição javista e a segunda à tradição sacerdotal. Os estudiosos deste texto têm tentado conciliar as duas, pois entre elas se repetem alguns nomes, havendo, entretanto, variantes consideráveis.
Nós não temos condições de elucidar estas dúvidas, nem de analisar o significado de cada personagem que compõe estas listas. Emmanuel com toda sua lucidez nos afirma que:
O Antigo Testamento é um repositório de conhecimentos secretos, dos iniciados do povo judeu, e que somente os grandes mestres da raça poderiam interpretá-lo fielmente, nas épocas mais remotas.[1]
Entretanto, baseado em estudos de alguns companheiros que nos antecederam nestas análises[2] e em pontos esclarecedores dos próprios textos bíblicos, podemos nos aventurar a fazer uma singela conciliação entre as duas genealogias.
Assim, a partir deste momento até o início do sexto capítulo faremos comentários mais gerais do texto e menos minuciosos em relação a cada versículo, buscando apenas pontos que mais possam nos auxiliar na compreensão de nós mesmos e como utilizar estes conhecimentos dentro de uma proposta íntima de reeducação moral.
Voltemos ao texto. A mulher de Caim concebeu, isto é, engravidou, e deu à luz a Enoque.
Enoque é um personagem de grande importância nos textos bíblicos, a tradição judaica o destaca e atribui a ele livros apócrifos.[3]
Este é um dos nomes que se repetem nas duas genealogias. Nesta ele é filho de Caim, na do capítulo cinco de Jerede (Cf. Gn, 5: 18). Seriam a mesma pessoa ou personagens distintos?
Pensamos que seria o mesmo. E Dizemos mais, Enoque representa a volta de Abel, ou seja, a reencarnação deste, ou ainda a reincorporação do bem em nosso psiquismo através da evolução.
No primeiro caso representa aqueles elementos que voltam ao convívio familiar de um grupo complicado com o objetivo de exemplificar o bem auxiliando no processo evolutivo de todos. No segundo, aqueles lances que temos em nossa própria estrutura íntima apontando-nos um caminho mais seguro; é uma intuição que surge, um lampejo de boas realizações.
Temos nos dois casos um processo de luta íntima onde o Caim, ou o Jerede, significando o Caim num novo momento de exteriorização, tenta sufocar o Abel e manter o domínio do erro, cabendo ao Abel, na nova roupagem de Enoque, mais aperfeiçoado, desatar os laços dos enganos promovendo sua redenção.
Antes de darmos sequência em nossos comentários faz-se importante fazermos uma conexão entre os textos bíblicos, buscando assim apoio para a ideia do retorno de Abel em Enoque.
Paulo de Tarso que foi um dos maiores conhecedores da Bíblia hebraica que temos notícia, assim se expressa na carta que escreveu aos hebreus:
Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente. Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala. Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus. Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.[4]
Se a fé já foi por algum tempo um instrumento que nos levava a agir cegamente, hoje já não é mais assim, a fé tem que caminhar lado a lado com a razão; entretanto, esta última também deve evoluir para a intuição, pois a fé continua onde a razão humana para por falta de material para análise.
Temos então na dedução e na inspiração importantes aliados como mecanismos de evolução das ideias e das conquistas da ciência.
Os antigos por meio da fé alcançaram o testemunho, o que define que temos que realizar a fé pela vivência e assim amadurecermos para conquistas maiores nos terrenos do progresso.
Deus como eterno Criador fez tudo o que existe a partir de si, é uma dedução lógica, portanto o visível foi feito do invisível, a matéria do Espírito, o objetivo do subjetivo.
Deduzimos assim conforme a sequência do texto:
Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala.
Como que Abel ainda fala depois de morto?
Podemos rapidamente dizer que pela mediunidade. Isto é um fato, porém, ao que nos parece não é o que Paulo quer expressar, pois no verso seguinte ele já nos fala de Enoque:
Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus.
Ou seja, é através de Enoque que fala Abel. Paulo relaciona a fé do primeiro à do segundo, e acrescenta Enoque foi transladado para não ver a morte. Por quê? Para que não fosse morto novamente já que Abel havia sido.
Temos ainda, Enoque antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus. Quando se deu isto? O texto não fala claramente, mas sugere uma volta ao Gênesis:
Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta…[5]
Temos, portanto, aí, mais uma vez, os textos sagrados se completando, mostrando-nos a necessidade de estudarmos cada vez mais, e que São Jerônimo tinha mesmo razão quando afirmava que "a verdade não pode existir em coisas que se contradizem."
…e ele edificou uma cidade, percebemos aqui a movimentação do homem do campo para a cidade. Representando a saída da calmaria para a tempestade. O homem deixa o plano dos afins e penetra na diversidade onde encontra o seu campo operacional para edificação de si mesmo em novas bases de realizações.
Mais à frente Jesus vai orientar:
Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes…[6]
E quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas vestes.[7]
É que neste momento, após vencermos as zonas de conflitos, será importante a volta às origens. Será o retorno em outras dimensões.
A cidade representa então uma nova construção que deverá ser realizada. Nela encontramos a necessidade da convivência, do trabalho, da colaboração, encontramos também os conflitos, os interesses, a luta para vencer.
Como dissemos algumas linhas atrás é o campo operacional onde vamos reencontrar com as necessidades que criamos, reajustar nossa caminhada, e através dos opostos retornarmos ao equilíbrio e à unidade.
Através da cidade o texto mostra-nos o crescimento do processo e da própria humanidade através de outros grupos de Espíritos que retornam.
Vamos entender também, porque no capítulo que segue, o de número cinco, Caim está com o nome de Jerede. É que é ele em nova roupagem física, e quando reencarnamos é comum outro nome. Talvez aqui neste capítulo quarto ele já fosse Jerede, pois aqui ele já gera Enoque. O uso do nome Caim neste quarto capítulo talvez tenha sido um recurso da espiritualidade para nos mostrar a linha sequencial dos acontecimentos. Se assim não fosse ficaríamos perdidos; poderíamos dizer, quem é este Jerede? Foi então um recurso didático dos educadores espirituais para nos mostrar o andamento da evolução através da ida e vinda dos mesmos personagens.
…e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque. Enoque representa para Caim um vir a ser. Podemos dizer que Caim se redimirá através de Enoque, ou seja, que este é o superconsciente daquele.
Isto quer dizer que em nossa vida temos basicamente dois caminhos a seguir; em um damos vazão ao Caim que há em nós, em outro ao Abel. Na linha do primeiro vamos aprofundar nossas dificuldades que se desdobrarão nos Jaredes, Lameques, etc.; na outra vertente, isto é, se rompermos com o atraso seguindo pela linha de Abel, nos libertaremos através de Set, de Enoque, de Enos, Noé, e outros que virão até que o Cristo se torne pleno em nós.
Segundo colocações de nosso querido Sr. Honório Abreu, a cidade é uma edificação ao nível da emissão mental da individualidade, ela é um campo de construção, é um campo detonador de reflexos.
Ao dar o nome de Enoque para a cidade, é como se Caim fizesse uma conexão com o superconsciente, ele se vinculou mentalmente a sua proposta de edificação, naquele momento ele se desvinculou dos desmandos anteriores. É como uma revelação, que vem antes, para depois a efetivarmos pela vivência. Muitas vezes conseguimos sucesso se aprofundamos esta conexão positiva, em outras entramos em novas quedas se não conseguimos a sintonia desejada e deixamos falar mais alto o passado contaminado pelos enganos.
A cidade representa bem esta luta íntima, o "nome" é a definição das prioridades, do ponto de referência. Nós podemos nominar como quisermos, estando através da opção definindo a nossa glória ou o insucesso, pela segurança ou imprevidência da escolha.
Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.[8]


[1]  (XAVIER / Emmanuel 1980), cap. VII
[2] Aqui não podemos deixar de destacar os Srs. Honório Abreu e Leão Zállio.
[3] Cf. Judas, 14 a 16
[4] Hebreus, 11: 1 a 6
[5] Gênesis, 4: 4
[6] Mateus, 24: 16
[7] Ib., 18
[8] Mateus, 6: 19 a 21


Extraído do Livro "Haja Luz" a publlicar.


Para mais estudos sobre Evangelho à Luz da Doutrina Espírita acesse: Espiritismo e Evangelho


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